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As roupas que usamos dizem muito de nós mesmos, expressam o que somos (ou o que gostaríamos de ser...) e têm muito a ver com o nosso “espírito”, ou seja, elas nos identificam como pessoas ou como comunidade e têm importância cultural. Às vezes quando vamos dar uma roupa a alguém, dizemos: “comprei esta, pois é a sua cara!”

É importante também lembrar, sobretudo neste mundo cada vez mais marcado pelo fashion, que nossa relação com a roupa e o vestir pode muitas vezes ser também negativa. A propaganda e o mercado incutem o status que determinada marca imprime nas pessoas que a usam; com isso não são poucos aqueles que estão dispostos a pagar caro para ostentar essa ou aquela marca. A moda é uma espécie servidão a que muitas pessoas se submetem.

Como cristãos, somos convidados e nos revestir de Cristo: “Revistam-se do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14a). Revestir-se de uma pessoa é uma expressão grega que significa: assumir para si o interesse do outro, enxergar com a visão do outro, estar inteiramente envolvido com o outro imitando-o em tudo. No Rito do Batismo, existe um momento interessante, hoje pouco valorizado, em que o neófito é revestido com a roupa branca enquanto o presidente diz: “... você nasceu de novo e se revestiu de Cristo. Receba, portanto, a veste batismal, que você deve levar sem mancha até a vida eterna...” (RICA, 264), pois Cristo “é o esposo, a veste e a túnica que, imergida na água do batismo, já reveste a muitos...” escreve, no séc. IV, Optato de Milevo (Adversus Parmenianum, donatistam, V,3). 

Na Liturgia também fazemos uso de vestes variadas que apresentem certa beleza e nobreza, com arte e decoração, expressando a importância que damos ao ato de celebrar. O uso de vestes próprias para a Liturgia começou a surgir no século III, oriundas das vestimentas gregas e romanas, sendo também fruto de um grande processo de inculturação ao longo dos tempos. Na antiguidade elas não se distinguiam muito das vestes comuns, sendo apenas de melhor qualidade e com ornamentos específicos; com o tempo os costumes mudaram, mas a Igreja conservou o uso das mesmas vestes na sua Liturgia e foi isso o que levou à diferenciação entre as vestes do povo e as usadas pelos ministros no culto. 

Antes da reforma do Concílio Vaticano II, as vestes sagradas eram reservadas apenas ao bispo, ao diácono, ao presbítero e àqueles que exerciam as chamadas “ordens menores”, ou seja, os subdiáconos, leitores, acólitos etc. Hoje, outros ministérios foram aparecendo e sendo confiados a leigos e leigas e as comunidades introduziram o uso de vestes também para estes serviços.

Colocar uma veste para exercer um ministério significa: revestir-se de Cristo; mostrar que a pessoa que ali está não age em nome próprio, mas no de Cristo e da Igreja; dar dignidade e importância à ação sagrada; comunicar visualmente o mistério de Cristo; revestir-se da graça (beleza-glória) de Deus. 

A veste litúrgica, para além da beleza, expressa a diversidade dos ministérios e deve ser sinal da função de cada ministro, pois, na Igreja, nem todos desempenham as mesmas funções (cf. IGMR, 335). O uso das vestes e cores contribui para que a celebração seja, de fato, mais festiva e bela: festa para os olhos e para o coração... 

Com relação às vestes, hoje vivemos uma ambiguidade assustadora. Há aqueles que, tanto quanto podem, desprezam o uso das vestes sacras – e com elas de tudo o que é ritual, simbólico – e o julgam desnecessário. E também existem aqueles que fazem da vestimenta e da própria ação litúrgica uma ostentação pessoal e narcisista que, longe de dignificar a Liturgia, a desfigura.

Na verdade são dois extremos perigosos... e os dois conseguem basicamente a mesma coisa: ofuscar a beleza de Deus que deve emanar de uma Liturgia celebrada de maneira simples e sóbria, porém bela, nobre e decorosa (cf. IGMR, 42). Aliás, não é sem razão que o Missal Romano recomenda que “convém que a beleza e nobreza de cada vestimenta decorram não tanto da multiplicidade de ornatos, mas do material usado e da forma” (IGMR, 344) e, ainda, que se “deve visar mais a nobre simplicidade do que a pompa” (IGMR, 292).

Simbolicamente (liturgicamente!), colocar uma veste é um mistério e, diante da beleza e da grandeza do mistério, a atitude mais apropriada é da humildade de se saber apenas um sinal, um instrumento nas mãos da Beleza eterna.

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Pe. Daniel Menezes Fernandes,
Pároco da Paróquia N. Senhora do Carmo em Carmo da Cachoeira-MG,
Especialista em Espaço Litúrgico e Arte Sacra pela PUC-RS,
Mestre de Cerimônias e Assessor da Pastoral Litúrgica da Diocese da Campanha-MG.