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Iniciamos um novo tempo na Liturgia da Igreja: o tempo quaresmal. Com a celebração da Sagrada Quaresma, nós cristãos já começamos a celebrar o Ciclo da Páscoa, que é a maior de todas as festas cristãs. E, por isso, jamais podemos pensar a Quaresma separada da Páscoa; são dois tempos distintos, o quaresmal e o pascal, mas com um só objetivo que é celebrar o grande Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus Cristo.

A Quaresma apareceu e se organizou na Igreja como um tempo de preparação para a Páscoa, quando esta passou a ser celebrada com maior solenidade anualmente. Intuiu-se que uma tão grande festa não poderia acontecer sem uma esmerada preparação. A preparação era sobretudo feita pelo jejum, pela penitência, pela oração e pela caridade; também a catequese dos catecúmenos foi ganhando destaque, o que tornou o tempo quaresmal um tempo propício à preparação para o Batismo e os demais sacramentos da Iniciação Cristã, Crisma e Eucaristia. E, assim, firmou-se como um tempo de purificação e iluminação não só para os catecúmenos, mas para toda a Igreja.

A Liturgia é simbólica e com os símbolos quer nos comunicar alguma coisa do Mistério de Cristo. Assim também é com a Quaresma e, para que possamos viver bem este tempo, e para que, de fato, ele seja frutuoso, elencamos algumas considerações práticas:

- A cor litúrgica do tempo quaresmal é o roxo que indica não luto ou tristeza, mas simplesmente sobriedade, discrição, preparação; lembra o caráter de penitência e conversão deste tempo. No quarto domingo há um antigo costume de se usar a cor rosa que, pedagogicamente, indica a proximidade da festa da Páscoa e que, por isso, é chamado domingo da alegria (Laetare). nunca é demais lembrar que a cor litúrgica é trazida somente pelos ministros ordenados em suas vestes e pode aparecer muito discretamente nas vestes dos demais ministros leigos, como os leitores por exemplo. Se a Liturgia exige que sejam sóbrias normalmente (cf. IGMR, 344), muito mais na Quaresma.

- O Espaço Litúrgico: não é conveniente sobrecarregar o espaço litúrgico por exemplo com cortinas, velas, toalha do altar (esta deve ser sempre branca, cf. IGMR, 117 e 304) e panos no ambão, cenários etc. exagerando na cor roxa. A sobriedade e austeridade da Quaresma se manifestam também no visual do espaço celebrativo, que deve ser sóbrio, despojado... Deve-se retirar tudo o que for supérfluo: cartazes (definitivamente!), imagens desnecessárias... sobre as Flores, a IGMR (n. 305) diz que é "proibido" enfeitar com flores a igreja, só moderadamente no Domingo Laetare e nas solenidades deste tempo: São José, Esposo de Maria (19/03) e Anunciação do Senhor (25/03).

- As Tradições: em nossa região sul-mineira, há a tradição de cobrir as imagens sacras na Quaresma; a Liturgia hoje nada diz a esse respeito, mas esse costume parece condizer com a sobriedade do tempo, com a centralidade de Cristo na Palavra e na Eucaristia. Há ainda o costume de se propor aos fiéis somente a imagem do Cristo crucificado ou tão somente de uma cruz grande sem o Cristo no presbitério ou próximo dele. Tudo isso se feito com sobriedade e bom gosto pode sim produzir frutos. Na Quaresma propõem-se aos fiéis algumas práticas de piedade como a Via Sacra e as procissões penitenciais que são muito apreciadas pelo nosso povo; que sejam valorizadas e preparadas como momentos fortes de oração e também de evangelização. 

- O Canto litúrgico: também se pede que haja muita sobriedade na escolha e na execução dos cantos litúrgicos; é preciso que cantem o mistério da Quaresma de acordo com cada ano do ciclo trienal A, B e C. Não se canta o Aleluia e o Glória, como forma de exteriorizar a contrição e o jejum quaresmais. Tanto quanto for possível, não haja instrumentos a não ser para sustentar o canto. Cantores e músicos são responsáveis pelo clima de silêncio e meditação que é próprio da Quaresma.

- A Valorização da Palavra de Deus: na Quaresma, nossos ouvidos precisam estar mais abertos à Palavra de Deus que nos interpela à conversão, à acolhida do Deus misericordioso; para isto a Palavra precisa ser bem proclamada e os leitores conscientizados da importância do seu ministério como comunicadores de Deus. 

- Sacramento da Penitência e Celebrações Penitenciais: a Igreja orienta os pastores a não medirem esforços para oferecer ao povo momentos de reflexões, celebrações da Palavra que suscitem a conversão (celebrações penitenciais) e também o acesso ao Sacramento da Reconciliação, onde os fiéis alcançam a misericórdia de Deus; o Ano Santo da Misericórdia é a oportunidade para a valorização e uma adequada catequese sobre este Sacramento tão importante na vida cristã.

Essas observações práticas podem nos ajudar a fazer do Tempo da Quaresma "um tempo de graça e salvação" (Pref. Quaresma I), no sentido de que nos fará "entrar no clima", perceber que se trata de um tempo diferente. São atitudes exteriores – é verdade! – que precisam ser interiorizadas e bem vividas juntamente com o jejum, a oração e a caridade em nossas liturgias e comunidades. É preciso deixar os símbolos, ou até a falta de alguns deles, falar ao nosso coração, despertar em nós o vazio que só Deus em seu Mistério pode preencher...

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Pe. Daniel Menezes Fernandes,

Pároco da Paróquia N. Sra. do Carmo em Carmo da Cachoeira,

Assessor da Pastoral Litúrgica Diocesana.

Artigo publicado no Jornal Voz Diocesana, n. 1411, ano 69, Jan. 2016.